Página Inicial

Agricultores brasileiros disputam contrato de soja durante a guerra comercial EUA-China

Publicado em 10 de setembro de 2018

Os produtores brasileiros disseram que estão buscando apoio para desenvolver um contrato futuro de soja que facilite os acordos entre o Brasil, maior exportador de soja do mundo, e a maior importadora da China em um momento de intensas tensões comerciais entre EUA e China.

Um crescente coro de produtores, analistas, banqueiros e até mesmo um economista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos disse que faria sentido estabelecer um contrato desse tipo para cobrir os riscos crescentes, já que os preços da soja no Brasil e nos EUA divergem.

Os prêmios do porto de soja subiram para um recorde de US$ 2 sobre os preços de Chicago, após uma decisão tomada por Pequim de impor uma tarifa de 25 por cento sobre a soja dos EUA em julho, em retaliação às taxas impostas pelo presidente Donald Trump.

Um novo contrato poderia fornecer uma alternativa à CBOT (Chicago Board of Trade), que domina o mercado global de preços de soja. A empresa-mãe da CBOT, o CME Group Inc, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), disse que os produtores locais de soja gostariam de ver um novo contrato comercializado fora do Brasil ou da Argentina, o terceiro maior produtor mundial de soja.

Ele discutiu a ideia com o embaixador argentino em Brasília no ano passado e recentemente abordou a questão perante uma multidão de comerciantes chineses em uma reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o poderoso lobby agrícola do agronegócio do Congresso brasileiro.

“Os próximos passos envolvem a procura de aconselhamento técnico e jurídico para avançar o processo”, disse ele em uma entrevista na semana passada.

A criação de tal contrato na Bolsa de Valores do Brasil B3 SA não é complicada e exigirá apenas definição de padrões relativos a preço, qualidade e quantidade, disse Frederico Favacho, um advogado do agronegócio que representa os grupos brasileiros de processamento e exportação de grãos.

Se a guerra comercial continuar e a China quiser garantir a soja sul-americana de nova safra em janeiro e fevereiro, o prêmio colocado sobre a soja brasileira ?estaria pronto para negociação e seria difícil ou impossível cobrir o prêmio via CBOT?, disse. Dan Basse, economista e presidente da consultoria AgResource, de Chicago.

Os Estados Unidos, o segundo maior exportador de soja do mundo, no ano passado venderam cerca de US $ 12 bilhões em soja para os chineses, enquanto as vendas do Brasil para esse país ficaram um pouco acima de US $ 20 bilhões, segundo dados do governo.

A China está praticamente fora do mercado dos EUA desde que as tarifas foram anunciadas.

Faz sentido econômico buscar um local diferente para comercializar a soja brasileira, disse Warren Preston, vice-economista-chefe do USDA, à Reuters durante uma conferência em São Paulo.

Com interrupções no comércio, flutuações cambiais e diferenciais de transporte, aumentando o risco para produtores e compradores, Preston disse que se tornou ?mais difícil para as pessoas que usam um contrato CME tentar proteger suas compras e vendas?.

Em julho, a S & P Global Platts começou a publicar três avaliações domésticas do preço da soja denominadas SOYBEX CFR China, SOYBEX FOB Santos e SOYBEX FOB Paranaguá.

Enquanto fontes diplomáticas e industriais chinesas dizem que um contrato de soja na América do Sul deve ser explorado, eles não conseguiram apoio total.

Qu Yuhui, ministro-conselheiro da embaixada chinesa no Brasil, disse que o conceito de um contrato de futuros diretos entre o Brasil e a China merece discussão.

?Ambos os lados devem trabalhar na direção de qualquer idéia – como ter os dois lados assinando contratos futuros – que permitam ao mercado brasileiro de soja e agricultores saber quanto demanda chinesa haverá no próximo ano e que os compradores chineses saibam que preço eles podem obter. do Brasil ?, disse ele em uma entrevista no mês passado.

Um alto executivo chinês de empresas de grãos disse que a idéia seria “disruptiva”, tomando emprestado o termo do Vale do Silício para uma mudança positiva.

“A inovação é bem-vinda, já que o mercado está passando por mudanças estruturais e as margens estão apertadas”, disse o executivo, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar com a mídia.

Reportagem de Ana Mano em São Paulo; Reportagem adicional de Jake Spring em Brasília e Julie Ingwersen em Chicago; Edição de Caroline Stauffer e Matthew Lewis
Fonte: Reuters